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A nova rotina na Neonatologia...

Os meus dias e a minha vida ganharam uma nova rotina. Hospital-Casa-Hospital-Casa.
Não sabia o que pensar como me preparar. Tinha as minhas meninas a lutar pela vida e não sabia qual seria o desfecho desta historia.
Queria "sentir-me mãe" e desfrutar dessa sensaçao mas tinha muito medo de perde-las e não suportar.
Acho que pus um piloto automatico nos meus sentimentos. Tentar viver cada dia a meio termo. Nem viver a maternidade a 100%, nem pensar no pior a todo o momento. Continuava a ser muito estranho ouvir chamarem-me de "mãe"..
Continuava a viver em casa do meu pai mas comecei a pensar na casa que eu e o C. tinhamos alugado. Aos poucos começámos a levar móveis para lá e a meter na cabeça que acontecesse o que acontecesse com as nossas meninas iriamos morar juntos.
Sentia essa necessidade. A de ter a minha independencia com ele. Queria poder passar pela experiencia de uma vida a 2 . Mudámos-nos em Julho 08.
O quarto das meninas continuou vazio. Não queria móveis nem roupa por enquanto. Disse a toda a gente para guardar os presentes que me queriam oferecer para "mais tarde".

Levantava-me ás 9h e ia para o hospital. Quando tinha sorte apanhava a hora dos "banhos" e podia ver tratarem das minhas meninas. Nessas alturas era quando podia vê-las melhor. A mexerem-se pq acordavam quando lhes mudavam a fralda. Odiava era a parte em que lhes mudavam os tubos ou tiravam sangue. mas com o tempo também me fui habituando.


Aqui as fotos da minha Princesa Inês a ser mudada pela enfermeira ( a Bia continuava sedada):





Depois vinha a casa almoçar e tratar da casa e por volta das 17h ia lá novamente com o C. quando ele saia do trabalho. Aí era sempre uma visita muito rápida porque ele não tinha paciencia para lá estar muito tempo. Diz que se sentia inutil. Como era raro apanhar-mos uma "manipulação" a essa hora só podiamos ficar sentados a olhar para elas..
Foram ganhando peso lentamente e começámos a poder pegar nelas mais frequentemente. Com o método "kanguru".


Kanguru com a Ines.. (A Bia continuava sedada..)




Um mês e 2 dias depois de nascida pudémos finalmente fazer também Kanguru á nossa linda Bia. Ainda de máscara .:




Na visita da tarde ele ficava com uma e eu com outra enquanto lhes davam o leitinho pela sonda com uma seringa. Era muito bom mas muito desconfortável. Tinhamos de ficar numas cadeiras rigidas de plástico praticamente imóveis porque elas continuavam com os seus tubilhos ligados naqueles corpinhos frageis. Então não nos podiamos praticamente mexer e ao fim de uns minutos tornava-se muito dificil aguentar as posições.
Mas tinhamos as nossas princesas no colinho.








Peguei numa Princesa, mas vim para casa sozinha..

Mais uma viagem interminável á unidade. Fui sozinha de manha. Assim que acordei só queria vê-las. Fiz o ritual do costume do avental e da desinfecção das mãos e quando chegueí vi que estavam a mexer na Inês, apressei o passo, queria ver de perto. Tinham acabado de lhe arranjar a encubadora. A enfermeira perguntou-me se lhe queria pegar!!!!!!
Pegar?!!!! Podia pegar na minha filha?!!!! Assim tão pequenina e tão frágil? Pensei que só lhe pudesse tocar através das aberturas da incubadora. E ela podia vir cá para fora? Não lhe ia acontecer nada de mal?!!!
A enfermeira acalmou-me. Disse que ela era mais forte do que o que parecia. E de qualquer forma o estar lá dentro naquela altura não significava que estava isolada. Era a sua caminha, com uma forma diferente.. ela estava a respirar sozinha e só tinha um tubinho apontado para o narizinho onde saía um pouco de oxigénio para ela não se cansar muito. De resto podia pegar nela desde que lhe continuasse a apontar o tal tubo ao nariz. E assim foi. A enfermeira enrolou a minha minuscula Inês num lençolinho de flanela, eu sentei-me numa cadeira encostada á incubadora e ela colocou-a no meu colo.Tinha todos os outros fios ligados, que lhe monitorizavam as pulsações, oxigenação, temperatura etc
Impressionante! mal lhe sentia o peso. Ela era tão mas tão pequenina. . Mas tinha a minha menina finalmente no colo.
Fiquei a admira-la. Era a MINHA FILHA! Era tão macia! Tentei dar-lhe um beijinho na sua carinha mas era tão pequenina. fazia-me lembrar um gatinho bébé.
Aqui neste video podem ver o tamanho das suas mãozinhas. Eram tão pequeninas:

A minha linda Beatriz continuava ligada ao ventilador, a recuperar do Pneumotórax e com aquela luz azul para a ictericia. Olhava para a sua encubadora de lado. O meu coração apertava. Será que algum dia poderia ter as Minhas Princesas no colo?

Nesse dia tive alta.
Tive de vir para casa e deixar as minhas meninas lá no Hospital.
Foi uma sensação das mais horriveis que senti. Tinha estado "acompanhada" durante 6 meses pelas minhas meninas. Sentia-as mexer dentro de mim. E agora estava em casa e elas não estavam comigo. É um elo que se quebra. Uma falta que faz. Uma sensação de solidão, vazio, tristeza, sei lá!
Ainda vim com os tiques que se ganham durante a gravidez. E dava por mim a fazer festas na barriga. Agora era uma barriga vazia!! Ás vezes até tinha a sensação que as sentia mexer...Impossivel, as minhas meninas já não estavam no quentinho. Estavam na sua casinha de cristal rodeadas de tubos e por um som horrivel de máquinas sempre a apitar e longe de mim... Nessa noite não dormi. Só chorei! Queria tanto que a manha chegasse. Queria tanto estar perto das minhas meninas..

Nasceram e agora?

Como levei epidural só me podia levantar 12h depois do parto. As outras mães tinham tido partos normais por isso levantaram-se antes. A noite toda foi um frenesim de enfermeiras a entrar e sair para nos dar medicação para as dores, bébés a chorar, bebés a mamar, maes a andar de um lado para o outro para deitar e levantar os seus bébés. Enfim.. eu só queria descansar, fechar os olhos e dormir para passarem rapido aquelas horas em que não podia levantar-me. Para que chegasse a altura que poderia ver as minhas filhas. Queria, precisava de vê-las!


Chegou-se a manha e eu já me podia levantar. Ajudaram-me a tomar um banho. Custou-me imenso. A minha cicatriz foi feita ao alto, da púbis até ao umbigo, por já ter nesse sitio uma anterior de uma operação, por isso era bastante dolorosa. Mas o facto de ser assim facilitou o nascimento das minhas frageis bébés, se fosse uma cicatriz em baixo na horizontal na pubis como costuma ser, era mais dificil para os médicos as retirarem.


A seguir ao banho veio uma enfermeira dizer que quando as quisesse ir ver já podia, era só chamar alguém para me levar numa cadeira de rodas.

Tive receio! Quis esperar pelo C. Estava com medo da minha reacção e queria que ele as visse comigo.

O C. chegou ao meio dia. Vinha de muletas. Coitado tinha sido operado a um pé 3 dias antes.

Assim que ele chegou pedi-lhe logo no meio de um abraço cheio de lágrimas para irmos ver as nossas meninas.

Lá fomos nós. Ele de muletas e eu de cadeira de rodas. Aqueles corredores pareciam não ter fim. O meu coração batia muito forte dentro do peito. Era muita emoção e ansiedade junta. Finalmente eu ia ver as minhas filhas.

Chegámos á porta da Unidade e tivemos de esperar para nos darem permissão para entrar. Depois de entrar ainda tinhamos um longo corredor até chegar á sala dos Cuidados Intensivos. A seguir tinhamos de vestir uma bata e lavar muito bem as mãos e depois ainda desinfecta-las com um liquido azul que até hoje guardo o cheiro na memória. Estava a metros delas... Que ansiedade..

Indicaram-nos as incubadoras. Estavam cobertas por umas mantinhas.




E apresentaram-me a primeira.: A minha Beatriz:









Que choque!!!

A minha menina era minuscula!!!! Estava ligada a um ventilador para respirar, via-se o peitinho a encher e esvaziar mecanicamente. Tinha a carinha com uns "Óculos" de papel por causa da luz para a ectericia e tinha um cateter no peito a drenar um pulmão porque tinha sofrido um pneumotorax durante a noite. Tinha não sei quantos fios ligados a um monitor e um ligado á veia do umbigo. (Nos primeiros dias para não colocarem um cateter é por ai que alimentam e medicam os prematuros, pela veia do umbigo) e tirando aquele movimento da respiração não se mexia.

Chorei muito. Agarrei-me ao C. com um sentimento de desespero. Não tinha esperança que ela sobrevivesse. Era tão pequenina! Estava tão maltratada a minha menina. Via-se sangue a sair daquele dreno no peito. Via-se aquelas costelinhas todas a mexer quando o ventilador lhe enchia o peitinho de ar. A maquina apitava constantemente. E o ventilador era enorme. Via-o encher e esvaziar como só tinha visto nos filmes.Minha rica filha!

Uma médica de serviço viu-me e veio ter comigo. Tentou acalmar-se. Disse-me que o pneumotorax era uma situação "comum" em prematuros tão pequeninos. Que ela estava a reagir bem ao tratamento e que estava estável. Que tinhamos de esperar e ter esperança.

A seguir disse-me para ir conhecer a outra..


Descobriu a segunda incubadora.



Arrepiei-me quando olhei lá para dentro! A minha segunda filha era quase metade da primeira. Meu Deus tão pequenina e tão frágil. Nada nos prepara para uma imagem daquelas. Por mais imagens e videos que tivesse visto na internet, ver assim á minha frente a MINHA filha daquele tamanho foi uma sensação indescritivel. Um misto de medo, dor, espanto mas também de alegria.

A Médica disse-me que a Inês estava muito bem, dentro do possivel. Estava a guentar-se a respirar sozinha e os níveis de oxigenio estavam estaveis. Como tinham sido muito manipulada depois do parto estava muito cansada e por isso não convinha tocar-lhe já. Deviamos ficar só a olhar e deixa-la dormir. Mas mais tarde poderia tocar-lhe atraves das janelas da incubadora e durante a manipulação*poderia vê-la melhor.

*Manipulação é o termo que dão a quando têm de lhes mexer para limpar as incubadoras, alimentar ou medicar. Tirando essas alturas deixa-se o bébé quietinho na sua "casinha de cristal" (nome atribuido por mim ás incubadoras) para poderem descansar e crescer. Os bébés só crescem durante o sono profundo.. (também aprendi lá..).

Mostraram-me a sala e explicaram-me as regras de funcionamento da Unidade.

As visitas dos pais eram permitidas até ás 20h. Os avós podiam ir ás quartas-feiras até ás 18h. O resto dos familiares e amigos não eram permitidos. Só podiam ver os bébés quando tivessem alta. (meu deus as minhas irmãs poderiam nem vir a conhecer as sobrinhas pensei eu..)Os pais tinham direito a uma senha de almoço e outra de jantar. Podia tirar leite na sala de amamentação e entregar a uma enfermeira para lhes dar quando pudessem comer.Acho que naquele momento me entrava tudo a 100 e saia a 200. Achava que não ia entrar ali muito mais vezes. Eu não ia ter a sorte de ver as minhas meninas sair dali com vida...

Subimos para o meu quarto, onde já estava a minha melhor amiga P. e as minhas irmãs. Vinha a chorar. Não conseguia parar as lágrimas de cair. Tinha um nó no peito. Nem a carinha delas tinha conseguido ver bem. A Beatriz estava naquele estado vegetativo. A minha minuscula Inês apesar de respirar sozinha era tão pequenina que no meio de tanto tubo também não tinha dado para ver bem o formato do seu rostinho. Vinha siderada!

Trouxeram-me flores, comida e mimos. Tentaram-me animar. -Elas vão crescer!, -Não estejas assim há tantos bébés com o peso delas que sobrevivem, -Vais ver que elas vão vencer esta dura batalha!

Ouvi muita coisa mas nada me animava. Queria poder acelerar o tempo até á altura em que algum desfecho se desse. Ou o fim ou a saida delas daquele sitio. depois tinha outras dúvidas e medos. A maior parte dos prematuros que sobrevive ás 28 semanas fica con sequelas permanentes. Cegueira, atrasos mentais, problemas de rins e intestinos etc e tal... Meu Deus tantos riscos!!!

Tinha a minha cabeça sempre a mil á hora. Muitos, imensos pensamentos a passar a uma velocidade estonteante. Duvidas, medos, incertezas. Desespero!

As visitas acabaram e mudaram-me de quarto. Desta vez um quarto com 3 camas. A minha era a do meio. De cada lado havia uma mãe com o seu filho. Imóvel ficava a olhar para a azáfama delas. Tira bébé, dá de mamar, põe a arrotar, embala põe a dormir, deitam-se, bébé acorda, muda fralda, embala, bébé chora, dá de mamar outra vez etc e tal. Eu não tinha nada para fazer. Só os meus pensamentos me ocupavam. A minha angustia. O meu medo. A minha tristeza.

Tentava não pensar nas minhas filhas. Não queria mais ir vê-las. Queria esquecer tudo. Voltar ao antigamente. Ao tempo que era só eu e o C. Tentava mentalizar-me de que eu e ele precisavamos de ter tempo para nós. Afinal queriamos começar uma vida a 2 antes de engravidar. Mas tinhamos planos para acontecer tudo com outro ritmo. Queria viajar com ele. Encontrar uma casa para nós e mobila-la. Jantar fora com ele, passear, namorar enfim construir uma relação com calma, E depois pensaria em ter filhos. Mais tarde. Pelo menos só daqui a 2 anos (tinha tido cesariana por isso só poderia engravidar passado esse tempo), com calma, com tudo planeado. Isto era eu a tentar ver algo de positivo no meio de tanta tristeza e de uma situação tão dolorosa pela qual estava a passar. Pensar nas minhas meninas naquele estado doia demais. Pensar que já as amava tanto sem sequer ter tocado nelas e saber de todos os riscos que corriam e que podia perde-las era insuportável.

Devo ter chorado tanto que chamaram um psicologo para falar comigo. No meio de choro disse-çhe que não queria mais ir vê-las! Ele perguntou-me porquê. Eu disse que não me queria afeiçoar a elas. Já doia tanto a ideia de as perder, imaginava como era então perde-las e conhecê-las, sentir a sua pele. sentir o seu cheiro. Estava num estado caotico. De tristeza profunda. O psicólogo não me deu muitas esperanças. e o que eu mais queria ouvir naquele momento é que estava enganada! Queria tanto que ele me dissesse que estava a ser irracional. Que não tivesse medo. Que elas iam sobreviver... Mas não. Ele racionalmente falou comigo e disse-me que de facto as chances de elas sobreviverem eram poucas. Que os meus medos tinham fundamentos. Mas que não deveria de abdicar do direito de ser mãe. Que devia aproveita-las enquanto elas estivessem cá. Vivas! Que devia deixar o meu instinto maternal sair e passar o maximo de tempo possivel com elas. Porque se mais tarde acontecesse alguma coisa ia ficar arrependida de não o ter feito. E lá fiquei eu na minha cama a chorar sem parar. A pensar em tudo o que ele me tinha dito. E cheguei á conclusão de que estava a ser muito egoista. Para me proteger estava a negar uma mãe ás minhas Princesas. Por mais duro que fosse aqueles frageis seres tinham de ter o maximo de amor que eu lhes pudesse dar. Elas mereciam, as minhas minusculas meninas.
Depois de almoço desci e fui vê-las sozinha. Custava-me ainda muito andar e a Neonatologia ficava ainda um pouco longe do quarto. Fui mais uma vez de coração nas mãos. Desta vez não tinha o C. ao meu lado... Senti-me um pouco perdida.
Fiz o ritual de entrada e lá fui eu rumo á 1º incubadora. A Beariz continuava imóvel, com o seu peitinho a encher e esvaziar e com o dreno no peito. Continuava com os óculos por isso não se via o rosto.
Passei para a encubadora da Inês. Sentei-me numa cadeira e fiquei a contempla-la. Agora com outros olhos. Olhos de quem quer absorver tudo. Guardar todas as imagens. Olhos de mãe, embora ainda não me sentisse como tal...Olhei para todos os pormenores daquele ser tão pequenino. Era tão perfeitinha. Tinha tudo no sitio certo. Umas mãozinhas com uns dedinhos minusculos, uns pezinhos com as unhas todas formadinhas. Umas orelhinhas muuuito pequeninas. Ainda não tinha sobrancelhas nem pestanas. Tinha uma pele muito fina e escura, onde se via todos os capilares. Tinha muitos fios ligados. E tinha muito cabelinho preto encaracolado. Achei que ela tinha um rosto que era uma mistura minha e do C. A boca era como a minha. pequena em forma de coração. Mas o formato da testa e zona dos olhos acho que era parecida com o C. Era muito magrinha. Notavam-se os ossinhos todos por baixo da fina pele.
Fiquei a olhar...












Nasceram!!!!

28 Semanas...



Dia 5 de Junho de 2008, Quarta-feira..


Levaram-me para o bloco de partos para me preparar. O bloco estava cheio nesse dia. Colocaram-me num cubiculo onde só cabia a marquesa e pouco mais. Puseram-me uma argalia e fiquei ligada ao CTG. O C. pode estar comigo durante as horas que lá estive. Estava cansada de tanta espera, tanta duvida, tanta ecografia, tanto sofrimento e angustia. Estava num estado em que só queria que aquilo tudo passasse. Estava exausta fisica e psicologicamente.

Por volta das 16h30 levaram-me para o bloco. O C. não pode entrar. Pude ver na sala imensa gente. Além da equipa da cesariana estava já a postos a equipa da UCNIP com 2 emcubadoras a postos..

Colocaram-me na marquesa e a assistente do anestesista procurava acalmar-me. O meu corpo tremia a um ritmo alucinante. Ela perguntou se era frio. Eu não sabia responder. Era um misto de frio e medo. Uma sensação horrivel. Não conseguia controlar os movimentos.

Aconselharam-me a ter anestesia geral. Disseram que devia ser mais fácil para mim lidar com aquela situação "delicada"...

Não quis! queria epidural! Queria vê-las nascer, mesmo que sem vida! Precisava de ver os seres que trazia dentro de mim virem ao mundo!

Deram-me a epidural e em poucos minutos começaram a abrir-me. Uma sensação muito estranha. sentia-os a cortarem-me a pele e mexerem dentro de mim mas sem dor.

Senti um dos sacos abrir e a água escorrer. A médica disse:- Aqui vem a primeira, é tão pequenina..

Ouvi um ruido tal e qual uma gatinho pequenino a miar, era a minha primeira filha a chorar!!! Mostraram-ma assim num segundo. Só vi um vulto de uma silhueta de um bébé muito pequenino e muito escuro. Ela chorava! quer dizer que estava VIVA!!!! Foi rodeda pela equipa da UCNIP que a envolveu numa toalhinha e ficaram todos de volta dela. Só via as mãos de todos a mexer, tudo num ritmo muito rapido.. As lágrimas de alegria, corriam-me pela cara enquanto estava deitada com a barriga aberta á espera que tirassem a segunda.


A minha Beatriz nasceu ás 16h53, com 1,054grs e 33 cms de comprimento!


A seguir a médica diz: -Agarrei a outra! Ok, esta é que é a mais pequena!!!!!! E senti puxarem-me dentro de mim.

E vi outro vulto como o anterior mas ainda mais pequenino. O som era igual ao da primeira mas ainda mais agudo e mais ritmado. A minha minuscula bébé também chorava!!!! Respirava! Estava VIVA!!!!!!



A minha Inês nasceu ás 16h55 com 660grs e 32cms de comprimento!!!!


Rapidamente a equipa rodeou também a Inês e levou-a na encubadora.

O meu corpo parou de tremer!!! Senti uma calma, uma serenidade como nunca tinha sentido.

Sentia ainda as lágrimas a cairem-me pela cara e sentia o coprpo a balançar dos medicos me coserem e limparem.

Fui para o recobro. Deixaram o C. entrar. Eu estava a tremer de frio apesar de ter um cobertor electrico a aquecer-me. Era da anestesia começar a passar.

Lá estavam outras mães que tinham acabado de dar á luz.Tinham os seus bébés do lado. Umas começavam a dar de mamar e outras aprendiam com enfermeiras que iam passando. Ouvia choros de bébés pequeninos. Aquele chorinho caracteristico dos recém nascidos. Um som que não tinha nada a ver com o que tinha ouvido sair das boquinhas das minhas.

Eu era a única que estava sozinha!



Comecei a sentir-me vazia... Não tinha as minhas bébés ao meu lado. Não sabia nada delas. Não tinha conseguido sequer ver os seus rostinhos. Não tinha sentido a sua pele, ouvido a sua respiração, sentido o seu calor. Não sabia se estavam bem se mal. Se estavam vivas ainda!



Subiram-me para a enfermaria. Uma sala com 8 camas. Oito mulheres que tinham acabado de dar á luz , onde sete tinham os seus filhos ao lado e eu era a única que estava sem a tipica caminha de acrilico ao lado da minha. Era só a minha cama!



Ás 20h entrou uma médica no quarto, trazia 2 fotocopias na mão. estendeu-mas e disse-me.


-Estas são as suas filhas! São pequeninas mas umas lutadoras. por enquanto estão bem e estáveis! e saiu com um sorriso na cara.

Eram 2 fotocopias a preto e branco das fotos dos rostos das minhas meninas!Olhei para aquelas fotocopias como se fossem a mais bela obra de arte que já tinha visto a minha vida inteira!

Eram os rostos dos seres que trazia dentro de mim. Que cresceram dentro de mim. Aquela junção de celulas minhas e do C. que se tinham transformado naquelas pessoas pequeninas!!

As minhas filhas!



Primeira gémea: B E A T R I Z




Segunda Gémea: I N Ê S